Em vez de determinar com quão pouco podemos viver, identificamos do que não abrimos mão para viver

Hoje, adultos, não somos tão diferentes da criança que já fomos um dia. Se você vive em uma grande cidade, havendo passado os finais de semana da sua infância no litoral, é bem provável que continue migrando em direção à água, com sua família, para descansar. Se teve um veleiro na infância, espero que tenha um veleiro hoje – pois a vida é sempre melhor em um veleiro!

Como quando éramos crianças, é perto da água que nos encontramos com amigos, onde facilmente fazemos outros e nos deleitamos em encontrar os antigos. Aí comemos, bebemos e nos divertimos juntos. É onde velejamos e, ao jogar ferro em uma baía ou mesmo amarrados na marina, ficamos preguiçosos. Nadamos sob o Sol e descansamos, exaustos, em alguma sombra… Seguimos, sem perceber, um ritual social que nos faz sentir bem, relaxados, orgulhosos pelo que temos e pelo que conseguimos em nossa vida.

Essas fugidas da vida urbana em direção ao mar são fáceis de entender. Se crescemos perto do mar, a grande maioria das nossas memórias e sensações de prazer estão lá: no ar quente e puro do mar, na água fresca, no cheiro da maresia… Sem perceber, relaxamos olhando o horizonte; nadar passa a ser um remédio para o corpo; meditamos sem planejar; e até a cerveja parece mais gostosa… Em um veleiro, então, podemos perceber que somos menos nervosos e mais prestativos, mesmo passando alguns dias naquele mundo restrito, rodeado pelo imenso quintal de água e pela natureza exuberante. As conversas ficam mais fáceis e as relações se fortalecem. Observando as estrelas deitados no deck, nos lembramos de quando éramos crianças. Então, sem nenhuma preocupação, felizes, vivemos o momento.

No veleiro, não nos preocupamos tanto com o que ou quando vamos comer, mas estamos sempre beliscando ou achando motivo para nos reunir em torno da comida e da bebida. Sem horários, sem rotina – apesar de que a rotina ainda existe, só que é diferente… Passamos a ler mais, prestamos mais atenção ao que está ao nosso redor, nos relacionamos melhor com as pessoas, nossos sentidos ficam mais apurados e reclamamos menos de detalhes insignificantes. Temos a sensação de que o mundo é melhor.

No veleiro, não nos incomoda tanto se o banho tem de ser rápido, se o fogão tem pouca chama ou se tudo está úmido e melado. Ou até um pouco sujo, com aparência de velho ou rangendo. Nada nos incomoda muito, talvez porque aceitemos tudo isso com um sentimento de leveza e contentamento de estar vivendo, mesmo que por um instante, em um mundo onde tudo parece passar mais devagar… sem estresse, exigência ou crítica.

Amamos nossos veleiros também porque neles aceitamos que nossas vidas podem sempre ser mais devagar, com lazer, sem pressão… Desligados da rotina, aceitamos a liberdade de poder viver jogando baralho até às duas da manhã , dar um mergulho no meio da noite, nadar sob as estrelas, dormir ao relento e sobreviver de macarrão instantâneo e água morna.

É no veleiro que permitimos nos dar ao luxo, mesmo que por alguns dias, de viver de maneira mais simples, enquanto pausamos para apreciar a vida. Mas “em vez de determinar com quão pouco podemos viver, identificamos do que não abrimos mão para viver”… Então retornamos para nossa rotina, renovados e muito mais felizes.

Max Gorissen

Velejador, escritor e editor da SailBrasil… nessa ordem! 🙂


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